A moscaria

Leitura verde da narrativa em Êxodo 8,16-28

Matthias Grenzer

Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Brasil

mgrenzer@pucsp.br

https://orcid.org/0000-0003-3490-3112

Resumo: Ao acolher o episódio em Ex 8,16-28, o presente estudo procura pelas dimensões socioambientais pertencentes à narrativa exodal. O texto milenar olha para uma proliferação ímpar de moscas, causadora de danos às casas e ao solo ocupados pelos egípcios. Com isso, nascem duas perguntas: (a) Onde estão as origens da catástrofe ambiental? (b) O que a sociedade e, em especial, quem a governa devem aprender com o desastre? Justamente por incluir Deus nessa reflexão, a narrativa bíblica favorece uma ecologia integral, alertando para a conexão estreita entre as questões sociais e ambientais.

Palavras-chave: Êxodo, Ex 8, moscas, hermenêutica ecológica, leitura verde.

The swarm of flies

Green Reading of the Narrative in Exodus 8:16-28

Abstract: In taking up the episode in Ex 8:16-28, this study looks at the socio-­environmental dimensions of the Exodus narrative. The millenarian text looks at a unique proliferation of flies, causing damage to the houses and soil occupied by the Egyptians. This raises two questions: (a) Where are the origins of the environmental catastrophe? (b) What should society, and especially those who govern it, learn from the disaster? Precisely because it includes God in this reflection, the biblical narrative favours an integral ecology, alerting us to the close connection between social and environmental issues.

Keywords: Exodus, Ex 8, flies, ecological hermeneutics, green reading.

El enjambre de moscas

Lectura verde de la narración de Éxodo 8,16-28

Resumen: A partir de la lectura del episodio de Ex 8,16-28, este estudio explora las dimensiones socioambientales de la narración del Éxodo. El texto milenario contempla una singular proliferación de tábanos, que causan daños en las casas y el suelo ocupados por los egipcios. Esto plantea dos cuestiones: (a) ¿dónde están los orígenes de la catástrofe ambiental?; (b) ¿qué debe aprender la sociedad, y especialmente sus gobernantes, de la catástrofe? Precisamente por incluir a Dios en esta reflexión, la narración bíblica favorece una ecología integral, alertándonos de la estrecha conexión entre lo social y lo ambiental.

Palabras claves: Éxodo, Ex 8, tábanos, hermenéutica ecológica, lectura verde.

1. Introdução

A crise ambiental vivida pela humanidade, com desequilíbrios e catástrofes frequentemente experimentados em diversos lugares na terra, cada vez mais gera efeitos no âmbito do estudo da Bíblia. Assim, enxerga-se hoje melhor o quanto esses textos milenares não somente falam sobre Deus e sobre o ser humano, mas, com uma insistência semelhante, também acolhem os diversos seres não humanos, isto é, o ar, a água, o solo, a temperatura, os vegetais e os animais. Isto é, a Sagrada Escritura de judeus e cristãos, a qual, como literatura religiosa, é patrimônio cultural da humanidade, também visa à reflexão sobre a natureza e, inclusive, à questão da preservação dela. Nesse sentido, cabe colocar a pergunta de “como lemos nossos textos Sagrados”, aceitando “o convite de reimaginar nossas disposições interpretativas e pressuposições hermenêuticas”, para, assim, ser realizada uma leitura ecológica e/ou verde da Bíblia 1.

Em vista dessa tarefa tão abrangente, o presente estudo propõe-se a contribuir com mais um exercício exegético. Acolhendo o episódio sobre o terceiro sinal enviado ao faraó, que consiste na catástrofe ambiental da proliferação das moscas (Ex 8,16-28), três questões devem receber maior atenção: (a) Como o texto bíblico descreve o que acontece no meio da natureza? (b) Existem causas humanas para esse desastre? Isto é, as decisões políticas, porventura, têm um impacto sobre o ambiente? (c) O que o sinal das moscas revela sobre Deus?

De certo, o episódio em questão precisa ser acolhido dentro de seu contexto literário. Nesse sentido, é preciso pensar, antes de tudo, no ciclo narrativo dos dez sinais enviados ao faraó (Ex 7,14–11,10; 12,29-32) 2. Depois, num sentido mais amplo, o horizonte se alarga para a unidade literária no livro do Êxodo que narra a estada dos israelitas no Egito, sendo que estes, ali, são brutalmente subjugados a trabalhos forçados e, por causa disso, lutam por sua liberdade (Ex 1,1–13,16). Por fim, em termos literário-teológicos, o episódio aqui estudado (Ex 8,16-28) se encaixa no livro do Êxodo e, com isso, na obra literária do Pentateuco.

2. A narrativa bíblica

A narrativa a ser investigada, originalmente, foi composta em hebraico. Consequentemente, o presente estudo acolhe o texto milenar, assim como todos os paralelismos citados da Bíblia Hebraica, em sua língua de origem. Ao mesmo tempo, por sua vez, é importante disponibilizar a arte literária presente em Ex 8,16-28 como tradução própria para o português, guardando-se o princípio da literalidade e, com ele, o esforço de preservar os paralelismos existentes no texto hebraico, uma vez que eles, além de conferirem maior poeticidade à narrativa, são decisivos para o desenvolvimento da reflexão temática. Enfim, é como literatura que a Bíblia faz teologia 3:

(16) O Senhor disse a Moisés: “Levanta-te logo de manhã e posiciona-te diante do faraó, sendo que está saindo à água, e dize-lhe: ‘Assim disse o Senhor: Solta meu povo, para que me sirva! (17) Se não fores tu quem solta meu povo, eis que serei eu quem enviará a moscaria a ti, a teus servos, a teu povo e às tuas casas. E as casas do Egito se encherão da moscaria, inclusive o solo sobre o qual elas estão. (18) Nesse dia, porém, tratarei com diferença a terra de Gósen, sobre a qual permanece meu povo, para que ali não tenha uma moscaria, a fim de que saibas que eu sou o Senhor no meio da terra. (19) Estabelecerei uma diferença entre meu povo e teu povo. Amanhã ocorrerá esse sinal’”. (20) E o Senhor agiu assim. Uma pesada moscaria veio rumo à casa do faraó, à casa dos servos dele e à toda a terra do Egito. E a terra foi danificada por causa da moscaria. (21) Então o faraó chamou Moisés e Aarão. Disse: “Ide! Oferecei, na terra, um sacrifício a vosso Deus!” (22) Moisés, porém, disse: “Não é seguro agir assim, porque seria algo detestável para o Egito. Ofereceremos um sacrifício ao Senhor, nosso Deus. Mas, se oferecermos um sacrifício detestável aos olhos do Egito, não nos apedrejarão? (23) Andaremos um caminho de três dias no deserto e ofereceremos um sacrifício ao Senhor, nosso Deus, assim como nos diz”. (24) O faraó disse: “Eu vos solto, para que, no deserto, ofereçais um sacrifício ao Senhor, vosso Deus. Apenas não vos distancieis demasiadamente ao andar! Rogai por mim!” (25) Então Moisés disse: “Eis que eu saio de junto de ti e rogarei ao Senhor, para que amanhã afaste a moscaria do faraó, de seus servos e de seu povo. Que o faraó apenas não continue a enganar, não soltando o povo para oferecer um sacrifício ao Senhor!” (26) Moisés, pois, saiu de junto do faraó e rogou ao Senhor. (27) E o Senhor agiu de acordo com a palavra de Moisés. Afastou a moscaria do faraó, dos servos dele e do povo dele. Não restou uma só. (28) Contudo, também desta vez o faraó deu peso a seu coração e não soltou o povo.

3. O desastre ambiental

O vocábulo traduzido como “moscaria (ārōb)” ocorre sete vezes em Ex 8,16-28. Trata-se de um número que, ao funcionar como um “retórico e didático princípio organizador”, traz consigo as conotações simbólicas de completude, inteireza e/ou totalidade 4. Portanto, de acordo com as, justamente, sete menções da “moscaria” no episódio (vv. 17b.c.18c.20b.c.25d.27b), o ouvinte-leitor tem a impressão de que o desastre ambiental narrado é um acontecimento impactante e de maior abrangência.

Além da séptupla menção do substantivo “moscaria” em Ex 8,16-28, o vocábulo somente aparece outras duas vezes em toda a Bíblia Hebraica. No caso, dois Salmos acolhem o quarto sinal enviado ao faraó e a todos os egípcios. Ora o orante afirma: Deus “falou, e veio a moscaria” (Sl 105,31). Ora contempla “a moscaria enviada” pelo Senhor, Deus de Israel, e como ela “devorava” os egípcios (Sl 78,45). Este último paralelismo, inclusive, favorece pensar em insetos que mordem, picam e/ou sugam.

Ao traduzir, no século iii antes de Cristo, os cinco livros da Torá para o grego, a Septuaginta verte o vocábulo hebraico “moscaria (ārōb)” para “mosca-cachorro (kynómuia)” (Ex 8,17.18.20.25.27; Sl 78,45; 105,31), palavra composta pelos vocábulos “cachorro (kýōn)” e “mosca (muía)”. Com isso, visa-se a “um animal com caraterísticas atrozes de cão e mosca, que ataca sua vítima e a morde” 5. No hebraico, o substantivo ‘moscaria’, aparentemente, deriva da raiz verbal ‘misturar-se’ ou ‘meter-se (‘rb II)’. Assim, no que se refere à moscaria, ora pode pensar-se em diferentes insetos, que se juntam, ora na infestação dos espaços em que eles se põem 6.

O que, no entanto, o episódio em Ex 8,16-28 fornece ainda de outros detalhes a respeito da catástrofe ambiental? Primeiramente, Moisés anuncia a seguinte palavra do “Senhor”, Deus de Israel, ao “faraó” (v. 16): “Serei eu quem enviará a moscaria a ti, a teus servos, a teu povo e a tuas casas”, e “as casas do Egito irão se encher da moscaria, inclusive o solo sobre o qual eles estão” (v. 17). Posteriormente, a voz do narrador confirma o acontecimento previsto: “Uma pesada moscaria veio rumo à casa do faraó, à casa dos servos dele e à toda a terra do Egito” (v. 20). Portanto, de acordo com os espaços e os personagens mencionados na narrativa bíblica, visa-se a uma proliferação extraordinária de insetos, que, velozmente, invadem casas e, com isso, avançam contra pessoas, além de ganharem visibilidade na superfície do solo 7.

Ora, ao acolher a compreensão proposta pela Septuaginta e considerar “o bicharedo voador” (Lv 11,20.21.23; Dt 14,19), o quarto sinal enviado ao faraó parece consistir numa “moscaria (‘ārōb)” ou, com outras palavras, num “mosquedo” ou “enxame de moscas” (Ex 8,17[2x].18.20[2x].25.27; Sl 78,45; 105,31). De forma semelhante, o profeta Isaías se lembra da “mosca (zbûb) na foz dos braços do rio do Egito” (Is 7,18; Ecl 10,1), assim como Jeremias parece visar à “mutuca (qere)” como quem “vem sobre o Egito” (Jr 46,20).

Seja ainda lembrado que a Bíblia Hebraica conhece outros insetos alados: a “abelha” (Dt 1,44; Jz 14,8; Is 7,18; Sl 118,12), a “vespa” ou o “vespão” (Ex 23,28; Dt 7,20; Js 24,12), a “traça” (Is 50,9; 51,8; Os 5,12; Sl 39,12; Jó 4,19; 13,28; 27,18) e o “gafanhoto”, animal sete vezes mencionado no episódio sobre o oitavo sinal enviado ao faraó (Ex 10,4.12.13.14[2x].19[2x]) 8. Além disso, ao compreender o vocábulo na narrativa sobre o segundo sinal como “mosquito” (Ex 8,12.13[2x].14[2x]; Is 51,6; Sl 105,31), e não como “piolho” ou “pulga”, outro inseto do bicharedo voador ganha visibilidade 9.

Portanto, não faltam animais invertebrados no ar e/ou no solo que, com sua capacidade de multiplicar-se de forma incrível, são capazes de amea­çar a sobrevivência do ser humano e dos seres não humanos no Egito. Inclusive, chama a atenção do ouvinte-leitor que, dos dez episódios sobre os sinais enviados ao faraó (Ex 7,14–11,10; 12,29-36), quatro narram a proliferação de animais pequenos, envolvendo “rãs” (Ex 7,27.28.29; 8,1.2 [no singular!].3.4.5.7.8.9), que são vertebradas, “mosquitos” (Ex 8,12.13[2x].14[2x]), “moscaria” (Ex 8,17b.c.18c.20b.c.25d.27b) e “gafanhotos” (Ex 10,4.12. 13.14[2x].19[2x]). Por menores que esses seres sejam, eles desafiam o senhorio do faraó.

No que se refere aos primeiros nove sinais enviados ao governante do Egito, pode-se afirmar que todos eles, em princípio, cabem dentro das “realidades geográficas e ecológicas da vida no âmbito do Nilo, incluindo as inundações, a flora e a fauna, e até as microbactérias”, imaginando-se até, de acordo com a sequência dos desastres ambientais narrados em Ex 7,14–11,10; 12,29-32, “a presença de elementos causais para as pragas subsequentes” 10. Nesse sentido, especialmente a mosca-cachorro, ou seja, o “stomoyxs calcitrans, como inseto sugador de sangue que pode multiplicar-se prodigiosamente em regiões tropicais e subtropicais, é conhecido por transmitir o antraz e outras doenças animais”, algo que leva a pensar no sinal seguinte, que é a peste causadora da morte do gado (Ex 9,1-7) 11.

Não obstante, assim como, segundo a narrativa em Ex 8,16-28, a catástrofe ambiental da moscaria se faz presente rapidamente, isto é, em um dia após o seu anúncio – cf. o advérbio “amanhã” no v. 19 –, da mesma forma ocorre o fim e/ou a superação da crise. De acordo com o que Moisés anuncia ao rei do Egito – “Rogarei ao Senhor, para que, amanhã, afaste a moscaria do faraó” (v. 25) –, o Deus de Israel, outra vez de forma rápida, “age de acordo com a palavra de” seu profeta, “afastando a moscaria do faraó” (v. 27). Gera-se, portanto, a esperança de que a natureza, após um desequilíbrio e/ou desastre ambiental, também possa reencontrar o equilíbrio necessário, a fim de que, novamente, haja convivências harmoniosas entre seres humanos e não humanos.

4. Causas humanas

Ao ser um dos moradores da terra, casa que divide com os seres não humanos, o ser humano, naturalmente, influencia o equilíbrio e/ou as convivências entre os mais diversos seres nela existentes. Espaços geográficos são ocupados. Com isso, conflitos políticos e sociais podem gerar reações desastrosas do ambiente. Ao mesmo tempo, estas últimas, em princípio, tornam-se sinais, que, em vista de um bom futuro, exigem maior atenção. Uma leitura verde de Ex 8,16-28, atenta às dimensões socioambientais inerentes ao episódio, consegue descobrir o quanto a narrativa milenar parece estar sensível a essas questões.

Ao dar continuidade à narrativa exodal, a cena em questão continua a realçar a oposição entre o Egito faraônico e os por ele oprimidos. Em relação às personagens presentes na narrativa, observa-se, de um lado, o “faraó”, com nove menções (vv. 16.20.21.24.25[2x].26.27.28), os “servos” (vv. 17.20.25.27) e o “povo” dele (vv. 17.19.25.27), cada grupo com quatro menções, e o “Egito”, também com quatro menções (vv. 17.20.22[2x]). Somando, chega-se a vinte e uma menções (três vezes sete!) de quem, em princípio, se opõe à liberdade dos filhos de Israel e/ou se encontra aliado ao poder que insiste na opressão destes últimos 12.

Do outro lado, também com números expressivos, estão os oprimidos pelo regime faraônico. Ora se observa os dois líderes deles, que procuram negociar a liberdade de quem se encontra subjugado aos trabalhos forçados: “Moisés”, com seis menções (vv. 16.21.22.25.26.27), e “Aarão”, uma vez mencionado (v. 21). Juntando essas menções dos dois irmãos, completa-se outra vez o número sete. O “povo” liderado por Moisés e Aarão, no entanto, recebe seis menções (vv. 16.17.18.19.25.28). É a metade de doze, número que representa o Israel nascido das doze tribos. Além disso, em três das seis menções, o “Senhor”, Deus de Israel, em seu discurso direto dirigido a Moisés e a ser transmitido ao faraó (vv. 16-19), chama essa comunidade de “meu povo” (vv. 16.17.18).

Contudo, independente de pertencer aos “filhos de Israel”, que “entraram no Egito” como imigrantes (Ex 1,1), ou de pertencer aos egípcios, vale a consciência de que cada “povo” (vv. 16.17[2x].18.19[2x].25[2x].27.28) depende, em sua sobrevivência, de um ambiente favorável à sua existência. Um paralelismo sutil na narrativa bíblica realça essa verdade. Ao falar sobre “as casas do Egito”, entra em cena “o solo sobre o qual elas estão” (v. 17). Ao falar sobre os filhos de Israel, visa-se à “terra de Gósen, sobre a qual esse povo permanece” (v. 18) 13. Enfim, sempre é o “solo” (v. 17) ou a “terra” (vv. 18[2x].20[2x].21) que sustenta uma sociedade, etnia e/ou nação.

Além disso, também existe a experiência de que uma determinada região talvez não seja atingida pelo desastre ambiental que ocorre em outro espaço geográfico. Nesse sentido, contempla-se “a terra de Gósen” (Gn 45,10; 46,28[2x].29.34; 47,1.4.6.27; 50,8; Ex 8,18; 9,26) como isenta da “moscaria” (v. 18), assim como, mais tarde, “somente na terra de Gósen não há granizo” (Ex 9,26). Trata-se de “uma província marginal do Egito”, na qual os filhos de Israel, conforme a narrativa sobre José e os irmãos dele (Gn 37–50), foram instalados em vista de uma “segregação de povoações no país” 14. Ou seja, como “todo pastor de gado pequeno é algo detestável ao Egito” (Gn 46,34) e como, segundo Moisés, aquilo que os israelitas “oferecem de sacrifício é algo detestável aos olhos do Egito” (v. 22), as narrativas bíblicas parecem imaginar a necessidade de “uma distância no interesse dos dois” 15. Todavia, por causa da moscaria, agora todo o Egito corre o risco de “tornar-se uma terra inabitável e erma” 16. Apenas “a terra de Gósen” (v. 10), no noroeste do delta do rio Nilo, escapa da catástrofe 17. Subentende-se que essa ocorrência, facilmente, pode gerar novos conflitos, em vez de ser um sinal sabiamente acolhido pelo poder opressivo.

Outros dois espaços geográficos ainda ganham visibilidade no episódio em questão. No início, “o faraó” é contemplado como quem, “logo de manhã, está saindo à água” (v. 16; cf. também Ex 7,15). Com isso, o ouvinte-leitor irá pensar ora nas “águas que estão no rio Nilo” (Ex 7,17), ora nas mais diversas “águas do Egito: os rios, os braços do Nilo, as lagoas ou qualquer reservatório de água” (Ex 7,19; 8,1). Junto a isso, por sua vez, considerando o líquido precioso como absolutamente necessário para a sobrevivência dos seres humanos e não humanos, o fato de o faraó estar, “logo de manhã”, junto à “água” (v. 16) significa conforto, inclusive “por banhar-se no rio” (Ex 2,5). Justamente nesse momento, porém, o faraó é confrontado com as exigências do líder profético, anunciador da Palavra de Deus (vv. 16-19), a fim de que o governante pense no que precisa ser pensado.

Ao contrário do rei do Egito, que “sai à água” (v. 16), Moisés propõe, no que se refere a seu povo, “um caminho de três dias no deserto” (v. 23), lugar que se caracteriza pela ausência e/ou escassez de água. Aliás, qualquer presença de água potável nesse espaço inóspito ganha dimensões de milagre (Ex 15,22-27; 17,1-7; Nm 20,7-13; 33,14). Ali, “no deserto”, os filhos de Israel iriam “oferecer um sacrifício ao Senhor” (vv. 23-24), inclusive contando com uma permissão já obtida do faraó (Ex 8,4).

Como dito anteriormente, “na terra” do Egito (v. 21), pode existir uma barreira cultural-religiosa, no sentido de algo tornar-se “abominação” e/ou “detestável” (v. 22[2x]). No caso,

provavelmente, a repulsa egípcia esteja relacionada com a adoração de animais, entre os quais se destaca o deus-touro Ápsis. O deus-carneiro Quenúbis ou a deusa Hator, frequentemente representada como uma vaca, são outros exemplos de animais associados a divindades no Egito, mas que são mortos no culto sacrificial de Israel 18.

No entanto, também é possível que a narrativa em Ex 8,16-28 narre “a invenção de um negociador astuto” 19. O próprio faraó, pois, exige de Moisés e Aarão que eles “ofereçam um sacrifício a seu Deus na terra” (v. 21) ou que, ao irem para o “deserto, não se distanciem demasiadamente” (v. 24). Inclusive, pode imaginar-se que “Moisés insista com o faraó para que os israelitas adorem Deus no meio da natureza”, porque “há algo de especial em rezar num ambiente natural” 20. Além do mais, de acordo com a narrativa exodal, sabe-se que “o caminho no deserto” (v. 23) representa e/ou realiza a saída definitiva do povo oprimido (Ex 3,7-10.17), no sentido de que, ao atravessar o deserto, este irá caminhar rumo à terra prometida, sem voltar ao Egito.

Enfim, o episódio em Ex 8,16-28 permite perceber que espaços geográficos e/ou deslocamentos, infelizmente, não unem as pessoas. Existem separações cuja causa é o próprio ser humano. E há lugares inacessíveis a certos grupos populacionais, justamente por estes se encontrarem reservados a quem tem o poder para determinar isso. No entanto, o que o ser humano não consegue, de forma irônica, a moscaria alcança. Não há quem as impeça a invadir qualquer espaço.

Nem o faraó. Pelo contrário, a narrativa bíblica estabelece uma relação entre o comportamento do rei do Egito e a catástrofe ambiental. Por não “soltar o povo” por ele oprimido (vv. 16.17), “toda a terra do Egito é danificada devido à moscaria” (v. 20). Narra-se, inclusive, como a voz profética de Moisés informa o governante sobre as consequências ambientais das decisões políticas dele, oferecendo-lhe, até, o prazo de um dia para pensar melhor: “Amanhã ocorrerá esse sinal” (v. 19). No entanto, nem diante do desastre ambiental o rei do Egito se rende. Pelo contrário, ainda se propõe a determinar que Moisés e Aarão “ofereçam um sacrifício ao Deus deles na terra” (v. 21) ou que, ao “oferecerem um sacrifício a seu Deus no deserto, não se distanciem demasiadamente” do Egito (v. 24).

Além disso, surpreende a reação do faraó após a superação do desastre ambiental. Isto é, mesmo após “Moisés ter rogado ao Senhor” (v. 26), e isso justamente de acordo com a solicitação dirigida pelo próprio rei do Egito a Moisés e Aarão – “Rogai por mim!” (v. 24) –, sendo que o “Senhor, de acordo com a palavra de Moisés, agiu e afastou a moscaria do faraó” (v. 27), este não sabe interpretar o “sinal” (v. 19) que lhe foi proporcionado. No momento em que “não restava mais um só” enxame de moscas (v. 27), “o faraó, também dessa vez, dá peso a seu coração e não solta o povo” por ele oprimido (v. 28). Isto é, nem “as duas concessões” dadas pelo governante aos filhos de Israel – a permissão de “oferecer um sacrifício a Deus” (v. 21) e “a soltura para um caminho de três dias no deserto” (vv. 23-24) –, nem a oração (v. 26), nem “a advertência” por parte de Moisés – “Que o faraó apenas não continue a enganar!” (v. 25) – evitam que o rei do Egito “atribua mais peso a seu coração”, isto é, a seu raciocínio, “do que aos acontecimentos” 21.

Com isso, o ouvinte-leitor da narrativa bíblica chega à conclusão de que o poder opressivo, em princípio, não muda diante das crises e/ou desastres ambientais, mas, continuamente, provoca outras. E, em face disso, o profeta Moisés “é suficientemente perspicaz para não confiar” no governante 22. Mesmo assim, continua a implorar: “Que o faraó apenas não continue a enganar!” (v. 25).

5. E Deus?

O episódio sobre o sinal da moscaria em Ex 8,16-28 visa a Deus. É o personagem mais mencionado. São onze presenças do tetragrama, nome do Deus de Israel, transmitido aqui como “Senhor” (vv. 16[2x].18.20.22.23.24.25[2x].26.27). Além disso, o faraó (vv. 20.24) e Moisés (v. 23) se referem a este último como “Deus”. Com isso, há catorze (duas vezes sete!) menções diretas do agente celeste em questão. Observando todo o livro do Êxodo, observa-se que “a concepção narrativa da figura de Deus se distingue claramente de todas as outras figuras pelo fato de lhe ser atribuído o mais amplo campo de ação, inclusive a possibilidade de determinar a organização do mundo narrado” 23. Como isso, por sua vez, se concretiza em Ex 8,16-28?

Ora Deus age por meio de sua palavra, isto é, “o Senhor” se comunica e “diz” algo (vv. 16[2x].23), seja “a Moisés” (v. 16), seja, por meio desse seu profeta, “ao faraó” (vv. 16-19), a Aarão e à comunidade dos filhos de Israel (v. 23). Ora, no entanto, Deus faz o que anuncia, isto é, ao se propor a “enviar a moscaria” (v. 17), ele “age assim” (v. 20). Da mesma forma, ele “age” (v. 27) quando, ao atender a oração de Moisés, “afasta a moscaria” (vv. 25.27) do Egito.

Além disso, chama a atenção que, junto à catástrofe ambiental da proliferação das moscas, Deus “trata com diferença” (v. 18) “as residências egípcias dos israelitas” na “terra de Gósen” (v. 18), as quais “são poupadas da invasão estranha”, ocorrendo, dessa forma, a insistência no “domínio efetivo do Deus de Israel sobre os israelitas e os egípcios” 24. Dito de outra forma, Deus “estabelece uma diferença” entre o seu povo e o povo do faraó (v. 19) 25. Enfim, cinco raízes verbais, com, ao total, dez presenças na unidade literária em questão, indicam as ações do Senhor, Deus de Israel.

Além disso, diversos pronomes, por referirem-se a Deus, realçam a presença deste último. No texto hebraico, ora se observa a quíntupla presença do sufixo pronominal da primeira pessoa singular nas palavras “meu povo” (vv. 16.17.18.19) e “eis que serei eu” (v. 17). Ora se presencia o pronome pessoal da primeira pessoa no, teologicamente, relevante dito de Deus: “Eu sou o Senhor no meio da terra” (v. 18). Com o seu uso repetido, o dito “Eu sou o Senhor” é uma marcante fórmula religiosa no segundo livro do Pentateuco (Ex 6,2.6.7.8.29; 7,5.17; 8,18; 10,2; 12,12; 14,4.18; 15,26; 16,12; 29,46[2x]; 31,13).

Ora, com essas, ao total, trinta referências ao Senhor, Deus de Israel, nasce a questão sobre como o desastre ambiental da moscaria se relaciona com esse agente divino. Isto é, como a narrativa bíblica em Ex 8,16-28 reflete sobre as origens da catástrofe, mas também sobre a superação do desastre ambiental? Contemplando-se, no entanto, o conjunto dos episódios no livro do Êxodo, sabe-se que “a complexa variedade textual não permite ao leitor concluir que Deus seja o único agente das pragas ou mesmo que apenas Deus seja a fonte de uma única praga” 26. Há outros agentes: Moisés e/ou Aarão, o faraó e a própria natureza.

No caso da proliferação das moscas, não se narra uma ação conjunta de Moisés e/ou Aarão na realização do acontecimento. Deus somente chama Moisés para que este “se posicione diante do faraó” e o avise sobre a chegada da catástrofe no próximo dia (vv. 16-19), uma vez que “um profeta de Deus pode prever o que vai acontecer” 27. Com isso, o rei do Egito, em princípio, ainda tem a oportunidade de evitar o desastre ambiental. Ao mesmo tempo, “o Senhor” (vv. 16.17) se anuncia como “quem causará o envio (mašlîª) da moscaria” ao Egito, caso o faraó “não envie” ou “solte (mᵉšallēª) o povo” dos por ele oprimidos (v. 17). Enfim, como não houve essa reação da parte do faraó, algo que o texto bíblico não narra, confirma-se, então, que “o Senhor agiu assim” (v. 20).

Nesse momento, os insetos se tornam coagentes. Narra-se que “veio uma pesada moscaria rumo à casa do faraó, à casa dos servos dele e à toda a terra do Egito” e que “a terra foi danificada por causa da moscaria” (v. 20). A natureza parece estar em sintonia com “o Senhor da criação, que demonstra seu mais alto poder divino”, mesmo que, com isso, nasça “a imagem de um deus cruel” e/ou de uma “violência triunfante” 28. Todavia, vale a pena observar alguns pormenores na narrativa bíblica, a fim de descobrir como a imagem em questão, literária e teologicamente, é trabalhada.

A catástrofe ambiental tem caráter de “sinal” (v. 19). De fato, ela é ampla, “danifica a terra” e atinge a integridade física dos seres humanos. Em vista dessa última dimensão, seja lembrado como, mais tarde, a fuligem “se tornará furúnculos” nos corpos das pessoas (Ex 9,9), o granizo “ferirá” quem está no campo aberto (Ex 9,25) e “o Senhor ferirá todo primogênito”, tendo “um morto” em cada “casa” (Ex 12,29-30). No entanto, visa-se, sobretudo, à mudança do comportamento de quem governa. Em vez de continuar com as suas políticas opressivas e escravistas, as quais resultam em “servidão dura” (Ex 1,14[3x]; 2,23[2x]; 5,9.11; 6,6.9), “cargas (sbālôt) pesadas” (Ex 1,11; 2,11; 5,4.5; 6,6.7), “opressão” (Ex 3,7.17; 4,31), “dores” (Ex 3,7), “respiração curta” (Ex 6,9), “brutalidade” (Ex 1,11-14), “ferimentos” (Ex 2,11; 5,14.16) e “matança” ou “assassinato” (Ex 2,15; 5,21), inclusive com o “arremesso” de crianças recém-nascidas nas águas do rio Nilo (Ex 1,22), o faraó deve convencer-se da necessidade de “soltar o povo” por ele maltratado (v. 17).

Portanto, a compreensão adequada do “sinal” (v. 19) oferecido pela natureza e, com isso, por Deus, ajudaria a evitar novos e maiores desastres. Afinal, “ao danificar a terra” (v. 20), a ação da moscaria (v. 20), inclusive, anuncia os acontecimentos do último sinal, prefigurando a “praga danosa” (Ex 12,13) da morte dos primogênitos entre os filhos do ser humano e a cria do gado, quando, na terra do “Egito, o danificador entra para ferir” (Ex 12,23). Mais ainda, assim como no caso da moscaria, o desastre da morte dos primogênitos, novamente, não atinge os filhos de Israel. Num momento posterior, porém, de forma irônica, justamente esse “povo danifica” a si mesmo (Ex 32,7).

Por fim, no que se refere à moscaria, “o sinal se encontra tanto na praga como na eliminação dela” 29. Isto é, o desastre ambiental não se impõe definitivamente, mas é superado pela ação de Deus. Isto é, “o Senhor agiu” quando “veio a pesada moscaria” (v. 20). “E o Senhor agiu de acordo com a palavra de Moisés” (v. 27), quando este seu profeta, após ter conversado com o faraó, lhe “rogou” para que “afastasse a moscaria” (vv. 25-26). Assim, o “sinal” (v. 19), duplamente, ganha visibilidade para quem governa. Lamentavelmente, porém, prevalece no governante a postura de “atribuir peso a seu coração” (v. 28) e, portanto, a seu próprio raciocínio, em vez de acolher a sabedoria transmitida pela natureza, pelo profeta e, com isso, por Deus mesmo, a qual culmina na seguinte afirmação: “Eu sou o Senhor no meio da terra” (v. 18).

6. Considerações finais

O episódio sobre o sinal da moscaria (Ex 8,16-18), dentro de seu contexto literário mais imediato do ciclo narrativo sobre os dez sinais enviados ao faraó (Ex 7,14–11,10; 12,29-32), novamente faz perceber o quanto a literatura bíblica se torna teológica ao acolher as dimensões socioambientais da realidade vivida pelo ser humano. Aliás, a insistência no culto de “oferecer um sacrifício ao Senhor” (vv. 21.22[2x].23.24.25), tanto por parte do faraó como por parte de Moisés, encontra-se motivada pela catástrofe ambiental. Da mesma forma, a ação do profeta de “rogar ao Senhor” (vv. 24.25.26), exigida pelo faraó e executada por Moisés, visa à superação da proliferação das moscas, por mais que “um culto religioso limitado pelas condições de um patrão” escravizador “não seja um culto totalmente válido” 30. Por isso, é preciso que “o faraó solte o povo” por ele oprimido, a fim de que este, em liberdade, possa “servir” a seu Deus (v. 16). Mesmo assim, um desastre ambiental, de forma imediata, provoca que todos pensem e procurem por salvação em Deus.

Faz parte da vida do ser humano ver-se, repetidamente, confrontado com as enormes forças existentes na natureza. Com isso, poder contar com equilíbrios favoráveis às convivências entre seres humanos e não humanos, em princípio, é algo digno de admiração e gratidão. Não é nada simplesmente garantido. Mais ainda: a humanidade e/ou os governos não têm como garanti-lo. No caso, o “faraó” (vv. 16.20.21.24.25[2x].26.27.28), seus “servos” (vv. 17.20.25.27) e seu “povo” (vv. 17.19.25.27), isto é, o “Egito” (vv. 17.20.22[2x]), com todo poder acumulado nesse governo e nessa nação, não têm como afastar a moscaria. Pelo contrário, a proliferação dos insetos atinge a todos eles e, até os deixa indefesos.

Entretanto, a narrativa bíblica vai além disso. O regime faraônico e, assim, a sociedade opressiva e escravista se encontram expostos ao desastre ambiental, a fim de que, com esse “sinal” do alto (v. 19), desistam de suas políticas e de seus comportamentos violentos e prejudiciais em relação a quem subjugaram a seu poder. Ou seja, de forma misteriosa, a natureza parece tornar-se uma aliada de Deus, para que, dessa forma, prevaleça a divina opção preferencial pelos oprimidos. Ou, com outras palavras, diante do já existente conflito violento, a narrativa exodal contempla o Senhor, Deus de Israel, como quem, com sua “mão forte”, se propõe a “ferir (nkh)” o opressor, “realizando todas as suas maravilhas” (Ex 3,19-20).

Não obstante, tais ações divinas, presentes nos desastres ambientais enviados como sinais ao faraó (Ex 7,14–11,10; 12,29-32), não preveem a destruição do Egito. Pelo contrário, o projeto do êxodo inclui, simultaneamente, a libertação dos filhos de Israel, da “numerosa mescla de gente” que, com estes, subiu do Egito (Ex 12,38) e dos próprios egípcios, sendo que estes são “libertados” ao mostrarem-se solidários com quem precisa sair da sociedade opressiva, justamente por Deus, “nos olhos deles, infundir comiseração por esse povo” (Ex 3,21-22).

Resumindo: dentro de seu contexto literário, o episódio em Ex 8,16-28, religiosamente, veicula duas ideias mestras, vinculadas entre si. (a) O Deus de Israel é “o Senhor no meio da terra” (v. 18), isto é, em todo lugar. Subentende-se com isso que o mundo e tudo o que nele existe são sua criação; todos os seres lhe pertencem e devem estar a seu serviço; as convivências harmoniosas entre os seres, humanos e não humanos, são uma dádiva do Criador, mas também os desastres ambientais e sua superação. Enfim, “o Senhor age” quando “vem a moscaria” (v. 20), e “o Senhor age” quando “afasta a moscaria” (vv. 25.27). Contudo, a segunda dessas duas ações se caracteriza por gerar uma situação de maior permanência. (b) “O Senhor” insiste na “soltura do povo” dos oprimidos (v. 16). Chega-se, inclusive, à consciência de que as convivências nada harmoniosas entre os seres humanos, de forma frequente, resultam em desequilíbrios e desastres ambientais. Com isso, por sua vez, a natureza se torna palavra de Deus, transmitindo o seu “sinal” (v. 19) e/ou a mensagem de que o bem-estar depende da atenção à vontade do Senhor, Criador e Libertador.

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[recibido: 13/02/25 – aceptado: 19/03/25]


  1. 1 Irudayaraj, “Reading the Bible, Ecologically”, 187-188. A título de exemplo para os estudos sobre as dimensões ambientais pertencentes aos textos bíblicos, seja mencionado o seguinte manual: Marlow – Harris, The Oxford Handbook of the Bibel and Ecology.

  2. 2 Em estudos anteriores, foi-me possível estudar outras catástrofes ambientais contempladas nos episódios que, em Ex 7,14–11,10; 12,29-36, formam o ciclo narrativo sobre os dez sinais enviados ao faraó: as águas transformadas em sangue e a morte dos peixes em Ex 7,14-25 (Grenzer, “Águas degeneradas”), a proliferação das rãs em Ex 7,26–8,11 (Grenzer, “Econarratividades exodais”), a proliferação dos mosquitos em Ex 8,12-15 (Grenzer, “Mosquitos”), a peste dos animais em Ex 9,1-7 (Grenzer, “A morte do gado”), a poluição do ar em Ex 9,8-12 (Grenzer, “Fuligem”), a chuva de granizo em Ex 9,13-35 (Grenzer, “Aprendizados com a catástrofe climática”) e a proliferação dos gafanhotos em Ex 10,1-20 (Grenzer, “Locusts”).

  3. 3 O texto hebraico é acessado por meio da seguinte edição crítica: Elliger – Rudolph, Biblia Hebraica Stuttgartensia. O tetragrama é apresentado como ‘Senhor’.

  4. 4 Braulik, “Die sieben Säulen der Weisheit im Buch Deuteronomium”, 14. Seja lembrado neste contexto como, segundo a narrativa em Gn 1,1–2,3, Deus cria o mundo em sete dias, ou como, em 2 Rs 5,10, o profeta Elias pede ao arameu Naamã para banhar-se sete vezes no rio Jordão, a fim de restaurar sua carne da doença de pele.

  5. 5 Houtman, Exodus, vol. 1, 139.

  6. 6 É interessante observar que, mais tarde, quando “os filhos de Israel partem” do Egito faraônico e, com isso, saem da sociedade opressiva e escravista, “sobe com eles uma numerosa mescla (‘ēreb)” de gente, isto é, não israelitas que se misturam com os israelitas no momento do êxodo (Ex 12,38).

  7. 7 Em princípio, exclui-se a ideia de a narrativa em Ex 8,16-28 olhar para “vermes” (Ex 16,20; Dt 28,39; Is 14,11; 41,14; 66,24; Jn 4,7; Sl 22,7; Jó 25,6), animais que, sobretudo, vivem dentro da terra, como a lombriga ou a “larva” (Ex 16,24; Is 14,11; Jó 7,5; 17,14; 21,26; 24,20; 25,6). Com isso, a hipótese de que a palavra hebraica “moscaria” nasça do “vocábulo acadiana urbattu ‘verme’” se torna menos provável, Albertz, Exodus, 157.

  8. 8 Empregando nove vocábulos diferentes – “gafanhoto”, “locusta”, “grilo”; “esperança”; “lambedor”, “consumidor” ou “devorador”, “cortador”, “zumbidor” e “voador” –, que, somados, são mencionados cinquenta e cinco vezes na Bíblia Hebraica, esta última dá o maior destaque aos gafanhotos entre os insetos, cf. Grenzer – Fernandes, Gafanhotos na Bíblia Hebraica.

  9. 9 Sem ser voador, existe o “bicharedo que fervilha” ou “rasteja sobre a terra” (Gn 7,21; Lv 11,29.41.42.44). Pertencendo aos insetos com seis pernas, entram em cena a “formiga” (Pr 6,6; 30,25) e a “pulga” (1 Sm 24,15; 26,20). Semelhantes a estas, mas com oito pernas, ainda há a “aranha” (Jó 8,14; Is 59,5) e o “escorpião” (Dt 8,15; 1 Rs 12,11.14; Ez 2,6; 2 Cr 10,11.14).

  10. 10 Janzen, “The Ten Plagues of Egypt”, 398.

  11. 11 Sarna, Exodus, 42.

  12. 12 Não obstante, seja lembrado que, no meio do povo egípcio, também há quem se torna solidário com quem, fisicamente, precisa sair dessa sociedade escravista. Mais ainda, a narrativa bíblica avalia, justamente, “a participação ativa de quem tem condições para isso no processo de libertação dos miseráveis”, vendo nisso o caminho de salvação para quem pertence à nação faraônica, Grenzer – Paula, A libertação dos egípcios, 175.

  13. 13 Cassuto bem destaca esse paralelismo nascente da repetição da palavra “sobre qual” (v. 17), Cassuto, A Commentary, 107-108.

  14. 14 Kessler, Die Ägyptenbilder der Hebräischen Bibel, 143-144.

  15. 15 Ebach, Genesis 37–50, 473.

  16. 16 Houtman, Exodus, vol. 2, 58.

  17. 17 Em vista da localização de “Gósen” (v. 18), cf. Theis, “Goschen”.

  18. 18 Fischer– Markl, Das Buch Exodus, 112.

  19. 19 Houston, “Exodus”, 103.

  20. 20 Neril – Dee, Eco Bible, 111.

  21. 21 Kellenberger, Die Verstockung Pharaos, 127.

  22. 22 Childs, The Book of Exodus, 157.

  23. 23 Gillmayr-Bucher, “Die literarische Konzeption der Figur Gott im Buch Exodus”, 57.

  24. 24 Utzschneider – Oswald, Exodus 1–15, 216.

  25. 25 Acolhe-se aqui a proposta que a Biblia Hebraica Stuttgartensia (Elliger – Rudolph, 98) apresenta na nota de rodapé. Em vez de ler “redenção (pdut)” (v. 19), “o que nesta altura não faz sentido” (Dohmen, Exodus 1–18, 228), imagina-se o substantivo “diferença (plut)”, derivado da raiz verbal “tratar com diferença (plh)” (v. 18). A Septuaginta assim o entende: “E farei diferença” (v. 19).

  26. 26 Fretheim, “Issues of Agency in Exodus”, 601.

  27. 27 Meyers, Exodus, 83.

  28. 28 Lemmelijn, “Not Fact, Yet True”, 413.

  29. 29 Fretheim, “The Plagues as Ecological Signs”, 390.

  30. 30 Utzschneider, Gottes langer Atem, 120.